“A menina que matou os pais”: o assassinato brutal do casal Manfred e Marísia Von Richthofen

Os detalhes que você não vê, contados em primeira mão

“A menina que matou os pais”: o assassinato brutal do casal Manfred e Marísia Von Richthofen

Na noite do dia 31 de outubro de 2002 ocorreu um crime que repercute até os dias atuais, conhecido por todo o país. Trata-se do assassinato do casal Von Richthofen, líderes de uma família de classe média alta da cidade de São Paulo. Os dois foram mortos em sua própria casa. A polícia fora acionada na madrugada do dia 31 para o dia 1 pela filha mais velha do casal, que relatou ter chegado em casa e encontrado o portão aberto, bem como as luzes acesas, comportamento incomum da parte dos pais. Ela estava acompanhada por seu irmão mais novo, seu namorado e o pai deste, afirmando não ter tido coragem de entrar em casa.

Quando a polícia adentrou no imóvel, encontrou o ambiente completamente impecável e sem nenhum sinal aparente de arrombamento, com exceção do escritório e do quarto do casal, que estavam completamente revirados. Manfred, um engenheiro de 49 anos, e sua esposa Marísia, uma psiquiatra de 50, foram brutalmente assassinados por golpes na cabeça. Além disso, a cabeça de Marísia fora coberta por um saco plástico pego da própria dispensa da casa, e ambos foram sufocados com toalhas molhadas.

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Família Richthofen

Ao lado de Manfred estava posicionada uma arma de fogo. Já ao lado de Marísia, havia uma jarra de água, sem nenhum copo, o que imediatamente chamou a atenção da polícia. Ao serem comunicados sobre a morte dos pais, Andreas, filho caçula da família, ficou extremamente abalado, enquanto Suzane questionou aos policiais o que deveria fazer em seguida, surpreendendo-os. O namorado de Suzane perguntou se haviam roubado dinheiro, pois o casal guardava muito dinheiro em casa.

A polícia imediatamente começou a apurar o crime como latrocínio, ou seja, “roubo seguido de morte”, como é popularmente conhecido. O latrocínio não é classificado pela legislação brasileira como um crime contra a vida, mas sim de caráter patrimonial, uma vez que o assassinato é cometido para ocultar uma subtração econômica, anterior ou posterior.

A filha do casal informou que acabara de chegar em casa, pois havia saído para deixar o irmão em um cybercafé que ele sempre frequentava, chamado Red Play, para que este ficasse jogando por algumas horas, e depois se dirigiu com o namorado até um motel. Imediatamente o namorado de Suzane mostra uma nota fiscal como prova de que eles realmente estavam no local, o que novamente chamou a atenção dos policiais, por ser extremamente incomum alguém pedir um comprovante ou nota fiscal nesse tipo de estabelecimento. Suzane contou que por volta da meia noite foi em casa a fim de buscar dinheiro para pagar o motel, encontrando os pais dormindo, e saiu novamente 15 minutos depois, enquanto Daniel esperava no carro.

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Andreas, Marísia e Manfred

Ela afirmou que além das joias de sua mãe, os ladrões também haviam roubado cerca de 8 mil reais, além de euros e dólares que seus pais guardavam dentro de uma pasta, escondida num móvel com fundo falso. Vizinhos relatam que os Von Richthofen eram extremamente reservados e educados, apesar de aparentarem ser uma família fria. Pessoas próximas ao casal contaram que não tinham conhecimento de nenhum desafeto da família. Pela falta de sinais de arrombamento, de imagens de câmeras, e o estado em que a casa foi encontrada, a polícia descartou a possibilidade de latrocínio, pois o autor do crime parecia saber exatamente onde encontrar os bens da família, devendo ser alguém de seu convívio pessoal.

O casal foi velado no dia 1 de novembro, e Andreas e Suzane se mostraram extremamente abalados e emocionados. Alguns dias após o crime, a polícia retornou à residência para coletar quaisquer outras evidências, tendo sido atendidos pela filha do casal, Suzane, de biquíni e com um cigarro na mão. Rapidamente ela trocou de roupa para recebê-los, explicando estar à vontade em virtude da visita de amigos em casa. Lá dentro, Suzane conduziu os policiais por uma espécie de “tour” pela residência. Quando subiram ao quarto do casal, ela disse com naturalidade: “Aqui é o local em que meus pais morreram.”. Essa foi mais uma dentre as inúmeras vezes em que os policiais estranharam a frieza de Suzane.

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No dia 3 de novembro foi o aniversário de 19 anos da filha mais velha dos Richthofen, o qual ela comemorou no sítio da família. Em virtude do falecimento dos pais, ela recebeu dispensa da PUC, onde cursava o primeiro ano do curso de Direito, mas compareceu normalmente às aulas. Segundo relatos de pessoas que trabalhavam na casa na época, ambos os filhos do casal não pareciam abalados com a morte dos pais, pois nunca os viram “chorando pelos cantos”, por exemplo, e sempre agiam com naturalidade.

A esse ponto, devido à falta de suspeitos, a polícia já desconfiava que os filhos da família Richthofen poderiam estar envolvidos no assassinato dos pais, mas as suspeitas se tornaram concretas ao descobrirem que o cunhado de Suzane, Cristian Cravinhos, comprara uma moto menos de 12 horas após o crime, realizando o pagamento em dólares. Ao ser questionado onde obtivera os dólares sem ao menos ter um emprego fixo, Cristian afirmou que havia economizado o dinheiro ao longo dos anos. Suzane e seu namorado, Daniel Cravinhos, também prestaram depoimento, apresentando versões contraditórias sobre o que fizeram no dia do crime. Em suma, as versões eram conflitantes, fazendo dos três os principais suspeitos.

O relacionamento de Suzane e Daniel

Suzane e Daniel se conheceram em 1999 no parque do Ibirapuera por intermédio de Andreas, que, após ganhar um aeromodelo de presente, passou a praticar aeromodelismo, tendo Daniel como instrutor. Daniel foi indicado como sendo o melhor dentre os rapazes que praticavam o esporte no parque, tendo inclusive participado de competições internacionais. Os dois logo começaram a namorar, mas os problemas com a família de Suzane começaram após o relacionamento ficar mais sério. Amigos próximos ao casal assassinado afirmaram que Manfred e Marísia não aprovavam o relacionamento, pois acreditavam que o rapaz não dava valor aos estudos e ao trabalho, não sendo, portanto, um bom partido. Eles proibiram o namoro ao descobrirem que Suzane, além de estar usando drogas, mentia para os pais sobre onde estava, afirmando que dormiria na casa de amigas, quando na verdade, passava as tardes e até mesmo as noites com Daniel, inclusive faltando às aulas da faculdade. Após uma discussão grave no dia das mães daquele ano, em que Manfred chegara a agredir fisicamente Suzane, a filha do casal dissera aos pais que havia acabado o relacionamento. Depois disso, a paz supostamente voltou a reinar na casa dos Richthofen.

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A família Von Richthofen

Suzane Louise Von Richthofen nasceu em 1987, sendo a primeira filha do casal Manfred e Marísia Von Richthofen. Ela recebeu a melhor educação possível, sempre frequentando as melhores escolas. Suzane, desde a pré-escola, tinha notas impecáveis, sendo uma das melhores alunas da turma. Ela falava fluentemente português, inglês e alemão. Era descrita como sendo sorridente, meiga e carinhosa com seus amigos. Alguns anos mais tarde nasceu o segundo filho do casal, Andreas. A família não era muito próxima, uma vez que Manfred e Marísia, muito atarefados com o trabalho, não tinham tempo para ficar em casa com os filhos. Os quatro tinham suas próprias atividades e afazeres, logo levavam vidas independentes. Aos finais de semana, a família costumava ir ao sítio da família Von Richthofen. Manfred era mais próximo de Andreas, e Suzane, da mãe. Os dois irmãos ficaram cada vez mais próximos após o início do namoro de Suzane com Daniel. Os irmãos Cravinhos eram praticamente os únicos amigos de Andreas, que tinha uma personalidade mais retraída e tímida, diferente da irmã, que era extrovertida e falante. Em depoimento, Suzane e Daniel disseram várias vezes que não havia nenhuma objeção por parte dos Richthofen ao relacionamento dos dois.

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A confissão

Um vigia relatou que na noite do crime estava assistindo a um jogo de futebol, por isso se lembrava com precisão do horário. Segundo ele, em torno das 22:30, hora estimada da morte do casal, Suzane chegou em casa de carro, e não por volta da meia noite como ela afirmara. A polícia então se dedicou a obter uma confissão. Cristian Cravinhos foi o primeiro a fazê-lo, após passar a noite inteira na delegacia sendo interrogado. Ele confessou, finalmente, que juntamente com seu irmão e Suzane, fora responsável pelo assassinato do casal.

A polícia então comunicou Suzane e Daniel de que Cristian havia confessado o crime. Sem outra opção, os dois também confessam sua participação, dizendo que não havia outro modo para que pudessem ficar juntos livremente. Eles contaram em detalhes como o crime ocorreu. Na noite de 31 de outubro, Daniel e Suzane deixaram Andreas no cybercafé e foram até o local onde combinaram de encontrar Cristian. Os três voltaram para a mansão Richthofen, guardaram o carro e colocaram os pares de luvas que Suzane havia deixado preparados. Armados com duas barras de ferro adaptadas previamente por Daniel, eles entraram pela porta da frente e esperaram o sinal de Suzane, que subiu as escadas, acendeu a luz, verificou se os pais dormiam e sinalizou para que os irmãos subissem. Eles entraram no quarto e cada um se dirigiu a um lado da cama, onde Daniel golpeou primeiramente Manfred, e Cristian atacou Marísia. Antes de desferirem os golpes, Suzane desceu as escadas correndo, foi para a biblioteca e colocou as mãos nos ouvidos.

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Cristian, Daniel e Suzane

Mesmo após serem golpeados diversas vezes, o casal não morreu imediatamente. Daniel se dirigiu ao banheiro e pegou duas toalhas molhadas, colocando-as nos rostos do casal, visando finalizá-los. Sem sucesso, Daniel desceu até a cozinha, pegou uma jarra com água, subiu novamente e despejou no rosto de Manfred, finalmente alcançando seu objetivo. Após os assassinatos, os três se dedicaram a bagunçar o quarto, visando forjar uma cena de roubo. Suzane foi até o escritório, pegou uma maleta na qual o pai guardava dinheiro, a abrindo com a senha. Mesmo assim, Daniel cortou a maleta com uma faca para parecer que um ladrão estivera na casa. Eles dividiram o dinheiro ali mesmo.

Daniel foi até o closet, removeu o fundo falso e pegou as joias de Marísia junto com o revólver calibre 38 de Manfred, o qual foi depositado perto do seu corpo. Eles pegaram as joias de alto valor, espalhando as outras pelo quarto. Cristian Cravinhos relatou que estava muito abalado após o crime, sendo confortado por Suzane, que o disse: “fica tranquilo, Cris, você não me tirou nada, você me deu uma vida nova.” Eles abriram a janela do quarto e forjaram marcas de pegadas. Desceram as escadas, trocaram de roupa e lavaram as armas do crime na piscina, as quais foram descartadas pelo caminho, nunca sendo encontradas.

Após isso, o casal deixa Cristian em casa, se dirige até um motel e fica lá durante algumas horas, até que pegam Andreas no cybercafé e deixam Daniel em casa. Suzane volta para casa com Andreas, e liga para Daniel pedindo que vá até lá, pois havia algo estranho.

Julgamento e condenação

Os três tiveram a prisão preventiva decretada, e foram processados por duplo homicídio triplamente qualificado. O caso logo tomou repercussão nacional, e milhares de pessoas se inscreveram para participar do Júri. Inclusive, emissoras de televisão queriam transmitir o julgamento ao vivo em rede nacional. O Júri ocorreu apenas em 2006, quatro anos após o crime, e os três usaram como estratégia de defesa tentar culpar uns aos outros. Suzane tentou de todas as formas convencer os jurados de que fora manipulada por Daniel, não obtendo sucesso. Daniel relatou que Suzane o enganou, mentindo para ele sobre ter sido abusada sexualmente pelo pai durante anos. Já Suzane afirmou que desistiu várias vezes de cometer o crime, mas não podia mais voltar atrás por causa de Daniel.

Confira abaixo alguns trechos do depoimento do casal em seu julgamento perante o Tribunal do Júri:

– Suzane:

“Entrei. Eu subi. Fui até lá em cima. Meus pais estavam dormindo. Quando eu desci, eles [irmãos Cravinhos] estavam vindo já, na metade do caminho. Desci assustada, apavorada, sem saber o que estava acontecendo, confusa. Não sei, não lembro.

“Eu ia escondido para a casa dele [Daniel], com ele. E lá, ele começou a me oferecer várias drogas. Ele falava: ‘vai, cheira. Não seja careta, vai. Pode confiar, pode confiar. Você não vê? Eu faço e é legal. Faz também'”.

“Ele tentava de todas as formas destruir aquela imagem linda que eu tinha do meu pai. Do paizão, do amigo.”

“[As pessoas me diziam que] ‘Para ele e para a família dele, você é a galinha dos ovos de ouro dele.'”

– Daniel:

“Ela já fumava maconha e cigarro antes de me conhecer. E eu comecei a fumar maconha e cigarro depois que eu a conheci.”

“Para ela, a vida já estava perdida. Pensou em tirar a mangueira do freio do carro, pensou em botar fogo no sítio com eles [Manfred e Marísia] dentro.”

Ao fim do julgamento que durou cinco dias, Suzane e Daniel foram sentenciados a 39 anos e 6 meses de prisão, enquanto Cristian recebeu uma pena de 38 anos e 6 meses. Eles foram condenados por duplo homicídio qualificado e fraude processual, por ocultarem elementos do crime e forjarem uma cena de roubo.

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