Caso Pesseghini: verdade ou queima de arquivos?

Os detalhes que você não vê, contados em primeira mão

Caso Pesseghini: verdade ou queima de arquivos?

Um menino mata quatro familiares e vai para a escola no carro da mãe. Ao voltar pra casa, comete suicídio.

Parece o roteiro de um filme de terror, mas não é. Essa história é real e aconteceu em 2013, quando Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, de 13 anos, supostamente teria assassinado seus pais, Luis Marcelo Pesseghini, de 40 anos, e Andreia Regina Bovo Pesseghini, de 36 anos, além de sua avó Benedita Oliveira Bovo e sua tia-avó Bernadete Oliveira da Silva.

O crime

Segundo a polícia, na madrugada do dia 5 de agosto de 2013, Marcelinho, como era chamado, atirou em seu pai, sargento da Polícia Militar, que dormia num colchão na sala de sua casa por ter apneia. Sua mãe, cabo também da Polícia Militar, acordou com o barulho e se levantou — ajoelhada ao lado do marido, foi alvejada na nuca.

Após isso, Marcelo Eduardo seguiu para a casa onde residiam sua avó e tia, no mesmo terreno da sua. Primeiro, matou sua avó e em seguida se dirigiu ao quarto de sua tia, que havia acordado com o barulho, e também a executou.

Marcelo teria, então, ido para a escola com o carro de sua mãe, onde dormiu até chegar a hora de entrada. Assim que voltou pra casa após a aula, por volta das 14 horas, cometeu suicídio.

As estranhezas do caso Família Pesseghini:

Diversos pontos foram completamente ignorados e/ou abafados pela polícia quando o caso foi fechado, considerando Marcelinho como culpado pelas mortes.

1º ponto: A cabo Andreia Regina Bovo Pesseghini havia denunciado colegas de trabalho corruptos.

Segundo o coronel Wagner Dimas, comandante do 18º Batalhão da Polícia Militar, Andreia havia denunciado colegas de trabalho que estariam envolvidos com roubos a caixas eletrônicos. A informação foi confirmada durante entrevista à Rádio Bandeirantes, onde o coronel disse também que não acreditava que o filho havia matado a família.

No dia seguinte, Dimas veio a público dizer que “havia se perdido” na entrevista. Wagner foi afastado do comando do batalhão, mas segundo a PM ele havia pedido afastamento por motivos médicos, mas que ainda era o comandante.

Na época em que a cabo Andreia denunciou os colegas, o comandante do 18º Batalhão era o coronel Osni Rodrigues de Souza, também afastado em seguida. A investigação que apurava se a cabo Andreia teria denunciado o esquema de PMs corruptos desapareceu.

2º ponto: Marcelo não tinha resíduos na mão.

O prestigiado legista George Sanguinetti disse: “Informaram que o menino era canhoto e nem a mão esquerda, a provável a ser usada para fazer os disparos, e nem direita apareceram com resíduos de tiros. Obrigatoriamente quando efetuam-se disparos de arma de fogo os resíduos aparecem. Se disserem que ele efetuou e deu negativo o exame residuográfico estamos indo de encontro com toda a medicina legal”. Além disso, o médico questionou ainda o porquê da equipe de criminalistas não realizar exame em microscópio para observar resíduos dos tiros na derme e na epiderme do garoto. “Eles fizeram exames somente com a lavagem das mãos em soro, mas deviam ter retirado pedaços da pele do menino para investigar os resíduos e iriam encontrar.”

A arma foi encontrada na mão esquerda do menino, mas, segundo a família, Marcelinho era destro.

Se foi um suicídio, arma não deveria estar firme na mão?

3º ponto: vizinhos supostamente viram a casa sendo invadida.

Uma vizinha disse ter visto duas pessoas — entre elas, um policial militar fardado — pularem o muro da casa do casal de PMs Andreia Bovo Pesseghini e Luís Marcelo Pesseghini, por volta das 12h do dia 5, e comentarem que a família estava morta. 

Outro fato interessante é que houve a criação da página do Facebook em homenagem a memória do sargento Luis Marcelo Pesseghini às 16h48 do dia 5 de agosto, antes de a família morta ter sido encontrada, após as 18 horas.

4º ponto: posição dos corpos.

Mais um ponto apontado por George Sanguinetti foi sobre a posição em que os corpos foram encontrados:

Ao analisar as fotos da sala em que Marcelo e os pais foram encontrados mortos, Sanguinetti foi categórico ao afirmar que a posição do corpo do adolescente não é compatível com a de um suicídio, e sim, com a de um assassinato.

“Há muita clareza nas posições dos corpos, que mostram que os três foram assassinados. Ao fazer os cálculos de corpos com estatura semelhantes à da mãe e do filho, podemos observar que todos foram mortos por outra pessoa. A posição em que o corpo do menino caiu, com a mão direita em cima do lado esquerdo da cabeça e o braço esquerdo dobrado para trás, com a palma mão esquerda aberta para cima, não é compatível com a posição de um suicida, e sim, com a de uma pessoa que foi assassinada. A arma do crime também não está no local compatível, que iria aparecer na foto em cima da cama ou próximo aos joelhos do menino”

Para ele, a equipe da perícia precisa refazer os cálculos do trajeto dos corpos ao serem atingidos pelos projéteis porque a conclusão está equivocada ao afirmar que o menino assassinou os pais e depois se matou. Ele explicou que não é impossível refazer os cálculos mesmo com o cenário desfeito e que os peritos devem se basear nas imagens para concluir “claramente” que o menino também foi vítima.

Sanguinetti também afirmou que corpo de Andreia foi colocado no local em que foi encontrado: “A parte do corpo que ficou suspensa na cama corresponde a 15% da massa [corporal da vítima], e o peso restante iria fazer o corpo ser arrastado para o chão. Jamais, ao levar um tiro, o corpo conseguiria se manter em uma posição que a parte mais leve seguraria a parte mais pesada, a não ser que já estivesse com rigidez cadavérica, como podemos observar na foto.”[1]

Além disso, de acordo com a polícia, Marcelinho matou a família em dez minutos. O cadáver de Luis Marcelo, porém, estava em adiantado estado de putrefação, diferentemente dos demais.

5º ponto: câmeras de segurança.

Um laudo feito pelo perito norte-americano Mark Andrews, da Law Enforcement and Emergency Services Video Association, segundo o qual as imagens da câmera de segurança que mostram Marcelo saindo do carro da mãe e indo à escola foram manipuladas. De acordo com o laudo, faltam trechos no período marcado em 6:24:41. Além disso, o relógio pula de 6:24:41 para 6:24:43. O vídeo não foi periciado e polícia fez apenas um reconhecimento fotográfico e concluiu que era Marcelinho, mesmo a imagem tendo uma qualidade duvidosa. Um vulto que aparece ao lado do menino foi ignorado. Além disso, as filmagens de uma câmera na frente da escola de Marcelo foi ignorada.

Nenhuma imagem de câmera de segurança foi adicionada ao inquérito.

6º ponto: habilidade bélica e altura.

Todos os corpos foram encontrados com um único e certeiro tiro na cabeça. Para o doutor George Sanguinetti, isso é no mínimo estranho: “Apesar de as pessoas próximas ao menino dizerem que ele sabia atirar, a forma como cada um deles foi morto, com apenas um tiro na cabeça, é de atirador profissional. Por mais que o menino tivesse habilidade, ele iria efetuar mais de um disparo para atingir os corpos dos pais e para se certificar de que eles teriam morrido”.

Foi comprovado também que as manchas de sangue encontradas nas paredes são incompatíveis com tiros efetuados por alguém da altura de Marcelinho.

7º ponto: celular da vítima.

Ligações e mensagens recebidas no celular de Luis Marcelo antes de o corpo ser encontrado foram totalmente apagadas. A única mensagem que ficou no celular foi enviada pelo irmão de Marcelo após a PM já estar no local.

A estimativa é que 200 pessoas, em maioria policiais, tenham tido acesso a casa na noite após o crime.
A estimativa é que 200 pessoas, em maioria policiais, tenham tido acesso a casa na noite após o crime.

O caso Pesseghini é apenas um entre os vários exemplos de corrupção dentro da polícia e dos órgãos jurídicos no Brasil. Nós sabemos porquê a família Pesseghini morreu, mas quando Marcelo será inocentado e saberemos pelas mãos de quem essa família foi executada?

Que a verdade seja dita.

 

Um comentário

  1. Giovana disse:

    Muito bom, melhor que o Crimes Reais!! Parabéns

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