Serial killer de animais

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Serial killer de animais

Dalva Lina de Oliveira*, uma mulher de 42 anos na época, era definida por seus conhecidos e vizinhos moradores da Vila Mariana, em São Paulo, como uma pessoa benevolente, caridosa e dona de um grande coração, pelo fato de salvar das ruas e acolher dezenas de animais domésticos todos os dias, sendo a grande maioria desses animais gatos adultos e filhotes. Além de recebê-los em sua própria residência, ela percorria bairros próximos em busca de animais abandonados, passando-se por ativista. Várias pessoas da região metropolitana de São Paulo procuravam Dalva para entregar-lhe cães e gatos, com o intuito de que lhes fosse encontrado um novo lar. Inclusive, vários desses animais vinham de ONGs protetoras afetadas pela superlotação em seus abrigos. Dalva rapidamente conseguia doar os animais que lhe eram entregues, desta forma, acabou por conquistar a confiança da população. Ela cobrava o valor de 35 reais por cada animal que acolhia, valor este que supostamente seria destinado aos cuidados necessários e transporte dos animais. Apesar de dizer ter outro trabalho, tudo indica que esta era a sua principal fonte de renda.

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No ano de 2012 duas sócias fundadoras da ONG Adote Um Gatinho e ativistas da causa animal, Juliana Bussab e Susan Yamamoto, tomaram conhecimento do trabalho que Dalva realizava, pelo que entraram em contato com esta a fim de obter mais detalhes. A mulher alegou que recebia os animais e os encaminhava até um sítio em Curitiba, para que estes recebessem os devidos cuidados. As duas sócias da ONG não viram veracidade na história de Dalva, questionando-a de onde ela retirava fundos para custear alimentação, vacinas, castração e diversos outros cuidados necessários aos animais.

Não satisfeitas com as explicações, as sócias da ONG decidiram contratar um detetive particular para investigá-la. Além disso, elas publicaram em suas redes sociais um alerta para que ninguém entregasse animais à Dalva até que o caso fosse devidamente apurado, uma vez que ninguém tinha conhecimento do real destino dos animais doados. Uma mulher entrou em contato com a ONG avisando que havia deixado vários animais com Dalva antes de visualizar a publicação, pelo que a ONG tentou contatá-la para trazê-los de volta. Dalva relatou que já havia os enviado para o suposto sítio em Curitiba. Novamente Juliana e Susan não se convenceram com as explicações, pois os animais haviam sido deixados na casa de Dalva havia menos de 24 horas.

O detetive particular Edson Criado investigou a casa de Dalva por aproximadamente 22 dias. Ele relatou que neste período viu cerca de 300 animais entrando na residência, mas que nenhum saía. A mulher morava em uma casa de quatro andares, demonstrando ter uma boa condição financeira. Várias pessoas batiam em sua porta para deixar os animais, mas sequer entravam na casa. No 22º dia, Edson viu Dalva sair de casa carregando diversos sacos de lixo, deixando-os nas lixeiras de seus vizinhos. Ao verificar o conteúdo, encontrou 37 animais mortos, em sua maioria gatos, dentre eles adultos e filhotes. Imediatamente a polícia foi chamada, que encontrou diversos materiais cirúrgicos ao revistar a casa. Os policiais também conseguiram resgatar alguns animais com vida, sendo eles 8 gatos e 1 cachorro.

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Um laudo pericial foi solicitado para verificar a causa da morte dos animais. A perícia identificou diversas perfurações feitas com agulhas cirúrgicas nos corpos, e alguns cadáveres ainda estavam com as agulhas inseridas no organismo. Também foi constatado que eles não tinham uma alimentação adequada, muitas vezes passando fome ou comendo restos de alimentos. Todos foram mortos da mesma forma: aparentemente, Dalva amarrava os animais para que pudesse ter acesso ao tórax e injetar as substâncias cetamina, cloreto de potássio e os anestésicos Xilazin e Dopalen direto em seus corações, causando-lhes extremo sofrimento. Por vezes uma única dose era ineficiente, então ela realizava mais perfurações para garantir a morte do animal.

Em sua defesa, a acusada afirmou que praticava eutanásia nos animais para ajuda-los, por estarem velhos e doentes, alegação esta que foi provada ser falsa pela perícia, ao constatar que todos os animais eram saudáveis. “Recebo pets doentes há um ano e só sacrifiquei aqueles que não consegui recuperar”, afirmou ela. “Quando via que estavam sofrendo demais, aplicava uma injeção de anestésico no coração. Eles morriam depois de dez segundos. Aprendi a fazer isso com um amigo veterinário.”

Além disso, como já mencionado, alguns deles vinham de abrigos, portanto estavam bem cuidados antes de serem entregues à Dalva. Ao ser questionada sobre como havia conseguido a substância utilizada para assassinar os animais, afirmou que a obtinha através de um veterinário, que lhe instruía quanto à utilização do produto. No entanto, as autoridades nunca chegaram a prender ou sequer identificar outros responsáveis pelos crimes. As substâncias se tratavam de medicamentos de uso proibido pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), desta forma, Dalva foi acusada pelos crimes de maus tratos e uso de substância proibida sem autorização, aguardando sua sentença em liberdade.

Os crimes pelos quais ela foi denunciada são considerados de menor potencial ofensivo segundo a legislação brasileira, ou seja, de menor gravidade. No entanto, em decisão inédita, a justiça entendeu que a crueldade cometida pela assassina deveria ser punida de forma severa, pois ao que tudo indica ela vinha cometendo os delitos há cerca de 15 anos, maltratando e tirando as vidas de milhares de animais. Desta forma, ela foi a primeira pessoa no Brasil a receber uma pena severa pelo crime de maus tratos contra animais. Em 2017, ao receber sua sentença condenatória, Dalva fugiu da cidade, impossibilitando a sua prisão. Em fevereiro de 2018, após ter sua foto amplamente divulgada na mídia, a foragida foi reconhecida por populares em uma agência bancária. A polícia militar foi chamada e finalmente efetuou a prisão.

A promotora responsável pelo caso relatou que após ser presa em flagrante Dalva não demonstrou nenhum sinal de nervosismo ou medo. Ela nunca revelou o nome do suposto veterinário que forneceu as substâncias ou confessou os crimes, comportando-se de forma absolutamente fria.  Ela foi condenada a uma pena de 17 anos, 6 meses e 26 dias de prisão, além de ter sido aplicada uma multa de R$ 19.500,00 pelos crimes de maus tratos a animais e uso de substância tóxica, equiparando o assassinato contra animais àquele cometido contra humanos. O Brasil foi o primeiro país no mundo a detectar e julgar severamente o assassinato em massa de animais, e o caso serviu de analogia para outros magistrados ao redor do globo.

De acordo com a psicóloga e perita criminal Rosângela Monteiro, Dalva pode ser considerada uma serial killer, ou seja, uma assassina em série, por apresentar todas as características de uma pessoa portadora de transtorno de personalidade antissocial, conhecidos vulgarmente como psicopatas. Apesar de não ter, pelo menos até o momento, matado qualquer pessoa ou sequer insinuado algum possível desejo de cometê-lo, há estudos que demonstram que 36% dos assassinos em série começaram sua matança ainda na infância, praticando crueldades e tirando a vida de animais domésticos, por serem de certa forma, vulneráveis e de fácil acesso.

Além disso, ela matava todos os animais da mesma forma, realizando o mesmo comportamento, estando configurado, assim, um modus operandi, que destaca os assassinatos em série dos demais. O fato de Dalva não ter qualquer tipo de empatia ou compaixão por animais reforça a possibilidade de ela sofrer de algum transtorno de personalidade. Assim como ocorre com os psicopatas, Dalva possuía uma máscara social: era conhecida como uma pessoa de bom coração e que ajudava os animais, quando ninguém (nem mesmo sua própria família) fazia ideia das atrocidades que ela cometia às escondidas.

Vale a pena conferir o site da ONG protetora dos animais que foi responsável por identificar os crimes. Os animais resgatados da casa da assassina foram enviados para a ONG adote um gatinho, para receber os devidos cuidados. Dalva entrou com uma ação para reaver os animais, mas o pedido foi negado pela justiça e logo eles encontraram novos lares.

http://www.adoteumgatinho.com.br/

 

*Em algumas fontes, o nome da criminosa também pode ser encontrado como “Dalva Lina da Silva”.

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