Sweeney Todd: A verdade por trás da ficção

Os detalhes que você não vê, contados em primeira mão

Sweeney Todd: A verdade por trás da ficção

𝓛𝓪𝓭𝓲𝓮𝓼 𝓪𝓷𝓭 𝓰𝓮𝓷𝓽𝓵𝓮𝓶𝓮𝓷, 𝓶𝓪𝔂 𝓘 𝓱𝓪𝓿𝓮 𝔂𝓸𝓾𝓻 𝓪𝓽𝓽𝓮𝓷𝓽𝓲𝓸𝓷 𝓹𝓵𝓮𝓪𝓼𝓮?

All right! You, Sir. How about a shave?

Na 186 Fleet Street, existe um barbeiro muito bem sucedido, mas estranhamente alguns de seus clientes nunca voltam.

O motivo é desconhecido para o resto da sociedade, porém a verdade é que quando um homem se senta na cadeira da barbearia de Sweeney Todd, seu pescoço é cortado sem dó nem piedade.

Mas o que leva o Sr. Todd a fazer isso? Para onde os corpos vão e o que é feito com eles em seguida?

Bom, perto das instalações da barbearia existe a loja de tortas de porco e de vitela da Sra. Lovett, famosas por seus sabores únicos, e, bem, senhoras e senhores…

          A verdade é sempre bela, e preciso dizer que as tortas da Sra. Lovett são feitas com CARNE HUMANA.

-Frase do livro “Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco de Fleet Street.”

Aqui está o segredo revelado, a cadeira em que os clientes da barbearia utilizam foi feita mecanicamente para que apenas com um aperto de botão, um buraco seja aberto no chão e os corpos sejam jogados em túneis subterrâneos que chegam até as instalações da Sra. Lovett, que por sua vez os transforma nas deliciosas tortas. Os restos que não são utilizados nas receitas são escondidos nos cofres úmidos e abandonados sob a igreja St. Dunstan na rua Fleet.

Essa história foi lançada como um penny dreadful (conto periódico de terror vendido por um penny, famosos no sec. XIX) com o título “The String of Pearls” (ou “O Colar de Pérolas”) entre novembro de 1846 e março de 1847 na Biblioteca de Periódicos da Família Lloyd e tem sua autoria atribuída a Thomas Prest e James Rymer.

Os dois trabalharam na biblioteca durante o mesmo período, e naquela época os autores não se preocupavam tanto em assinar seus textos, o que tornava a publicação em periódicos uma atividade extremamente informal, então é praticamente impossível saber qual deles escreveu a história inteira.

Após a publicação de “The String of Pearls”, Sweeney Todd tornou-se um dos nomes mais conhecidos nas histórias de crime, aparecendo em livros, séries e incontáveis filmes, melodramas e até mesmo musicais, algumas vezes acompanhando Drácula e Jack, o estripador.

George Dibdin-Pitt imediatamente dramatizou a história para o palco, estreando-a em 1º de março de 1847 no Hoxton Theatre. Um ano depois, disse  que sua produção fora “fundada em fato”. Desde então, especula-se se o barbeiro era “homem ou mito” e como o conto surgiu.

 

SWEENEY TODD – REAL OU LENDA? TEORIAS:

  • Uma delas refere-se a um fragmento de uma obra de Charles Dickens publicada entre 1842 e 1844 com o título: “The Life and Adventures of Martin Chuzzlewit”:

“O gênio do mal de Tom não o levou para os antros de quaisquer daqueles preparadores de pastelaria canibal, que são representados em muitas lendas do país fazendo negócios de varejo na Metrópole.”

Embora um grande número de obras de Dickens tenha sido plagiado por outros escritores após sua publicação, não quer dizer que o autor de The String of Pears tenha lido o fragmento e usado como base para sua história.

  • Voltando para o século XV, encontramos uma canção francesa que fala sobre um barbeiro que corta as gargantas dos clientes e despeja-os em seu porão antes de transformá-los em tortas. Assim como Sweeney, o barbeiro da música trabalha com uma cúmplice e está ligado a um lugar específico, neste caso a “Rue des Marmousets”, atual Rua Chanoinesse.

A música costumava ser cantada para as crianças.

  • Muitas fontes asseguram a seus leitores que Sweeney Todd existia, porém, jamais se viu em julgamento um barbeiro com esse nome no Old Bailey acusado de assassinar seus clientes e usá-los em receitas assassinas. No entanto, há quem jure que a história é real e que devido à bizarrice do caso, as autoridades resolveram encobrir todas as suas evidências. Ademais, nem tudo indica que ele seja realmente apenas um personagem fictício.
  • Existe um relato publicado no século XVIII e reimpresso no ano de 1956 em “The Story Pages Collector” afirmando que vários corpos foram encontrados sob o piso de uma loja na Fleet Street por uma equipe de construtores. O relato ainda diz que o proprietário anterior era um barbeiro chamado Sweeney Todd, falecido.

Essa evidência não prova por si só que ele realmente existiu, mas pode esclarecer o motivo de não ter transcrições documentadas do julgamento de Todd: Ele faleceu antes de o encontrarem.

O que se sabe ser verdade é que havia, e em alguns lugares ainda há uma rede de túneis que poderiam ter sido usados para conectar as catacumbas da igreja de St. Dunstan com a Fleet Street e a Bell Yard.

  • Na época em que a história apareceu, certamente existiam fragmentos de horror da vida real flutuando na época. O público tinha um enorme apetite por histórias do gênero e devorava relatos de notícias locais sobre ações perversas e crimes nefastos. Como essas notícias viajavam de boca em boca, histórias de crimes chocantes passavam de pessoas para pessoas (com provável embelezamento ao longo do caminho) e eram afirmadas como “fatos verdadeiros”. Além disso, muitos penny dreadfuls eram relatos ficcionais de crimes reais.
  • Se a história de Sweeney foi baseada em uma figura composta que foi feita combinando os motivos e modus operandi de muitos assassinos, é certamente sustentável, afinal, cada história é verdadeira de certa maneira. De fato a Fleet Street existe e é uma rua cheia de histórias.

 

      CURIOSIDADES:

  • Quando a história surgiu, os aparelhos de barbear elétricos e de segurança eram luxos do futuro e qualquer cavalheiro que precisasse de um barbear rente e limpo era forçado a confiar-se a um barbeiro local. Sentado na cadeira do barbeiro e com a cabeça inclinada para trás com a garganta exposta quando a lâmina afiada da navalha deslizava de um lado para o outro em sua pele, certamente um homem poderia se sentir decididamente exposto e vulnerável. Com isso, os autores dessa história criaram o medo do familiar, deixando a obra ainda mais horripilante.
  • A certa altura, Sweeney Todd se tornou tão popular que, na década de 1940, a palavra “barbeiro” começou a ser considerada vulgar. Em um estudo de literatura juvenil de 1948, E.S. Turner escreveu que a surpreendente popularidade do conto fez com que uma boa e velha palavra inglesa caísse em descrédito e agora deveria ser substituída pela palavra cabeleireiro.
  • Durante o início do período moderno, nem todas as formas de canibalismo eram rejeitadas socialmente. Os médicos ingleses da época usavam partes do corpo como: carne humana, gordura e ossos para curar pacientes de várias doenças. Essas partes eram moídas até um pó fino e ingeridas ou aplicadas na pele topicamente.
  • Apesar de sua popularidade, a prática do canibalismo medicinal diminuiu durante a segunda metade do século XVIII, quando a opinião pública se voltou conta ele, tornando o conto ainda mais poderoso, pois quando foi lançado, todas as formas de canibalismo eram consideradas socialmente inaceitáveis.
  • Em 2018, a história chegou em versão de livro com seu enredo original no Brasil pela editora Wish. O destaque da história claramente é o comércio de Sweeney Todd e da Sra. Lovett, mas ao redor deles há muitos outros conflitos, como o desaparecimento de um homem e seu colar de pérolas (daí o título original) e a busca incansável de uma moça por notícias de seu amado que aparentemente desapareceu nos mares.
  • Foto da capa:

Créditos da foto à editora Wish

  • Há também um filme/musical de Tim Burton intitulado de “Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street” lançado em 2007 em que Johnny Depp faz o papel do barbeiro e Helena Bonham Carter o da Sra. Lovett. A história é a de que Sweeney teria voltado em busca de vingança após ter sido detido durante anos por causa das acusações falsas do juiz Turpin (Alan Rickman). No filme, Todd tem uma filha chamada Johanna (Jayne Wisener) que está sob tutela do juiz, que nutre uma paixão doentia pela garota (no livro a personagem Johanna está presente, mas não é filha de Sweeney).

 

  • Fotos de divulgação do filme:
  • Fotos de algumas das ilustrações presentes no livro:
  • Por fim, em 31/07/2019 morreu o produtor teatral Harold Prince, que dirigiu uma peça sobre Sweeney Todd.

 

 

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